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Precisamos Falar Mais A Nossa Língua Portuguesa…

A tarefa mais difícil de quem procura um emprego é entender o que as empresas desejam. Há uma salada de palavras muitas americanizadas e várias sem traduções nos anúncios das empresas, que mais atrapalham do que ajudam. Isto pode ocorrer, por exemplo, quando uma empresa incorpora nos seus cargos os termos técnicos específicos do seu produto e/ou quando a empresa multinacional é fiel à descrição de cargos e salários da sua matriz. 

Um clássico, hoje já desvendado, é o Analista de SAP. SAP é a sigla que representa o nome da empresa que desenvolve sistemas de gestão, conhecido como R/3. Assim, o Analista de Sistemas, como estamos acostumados a ler nos currículos, com conhecimentos no sistema de gestão R/3, foi reduzido nos anúncios como Analista de SAP. Este tipo de linguagem, ainda não usual, causa prejuízos enormes tanto para a empresa quanto para os profissionais que procuram oportunidades. 

O principal motivo de abertura de uma vaga é a necessidade urgente de resultados. Porém, se a empresa não souber traduzir suas necessidades de modo que o profissional que ela procura costumeiramente se divulga, o tempo de preenchimento da vaga pode ser triplicado. O inverso é que, muitas vezes, o profissional não identifica uma oportunidade na qual ele é altamente qualificado por não saber ler nas entrelinhas a necessidade da empresa. No dia-a-dia é fácil verificar estes desencontros oportunidades-necessidades. Existem Sites na Internet com milhares de vagas cadastradas e o mesmo contingente de profissionais divulgando suas competências. De um lado as empresas reclamam que não encontram profissionais qualificados para o perfil da vaga em aberto e de outro encontramos os profissionais reclamando da falta de oportunidades. Outra situação é a reclamação das selecionadoras com o retorno dos anúncios veiculados nos jornais. O motivo é que das centenas de currículos, 80% destes não condizem com o perfil da vaga. 

Na minha opinião, o que falta é promover o encontro das duas partes, empresas e profissionais. Os sistemas de busca de profissionais, como são apresentados hoje, perdem muito em eficiência por causa desta salada. As empresas quando preenchem um formulário de vagas escrevem em “Hebraico” e os profissionais quando preenchem seus formulários usam o “Aramaico”. E, deste modo, ninguém se entende. 

A solução para este impasse acredito ser o tempo, até um dos dois lados ceder e começar a ouvir e interpretar as necessidades do outro. 

Outro entrave na oferta de vagas e procura de empregos é a quantidade de habilidades e qualificações que as empresas solicitam desnecessariamente. Qualquer vaga está recheada de habilidades como: Inglês, Espanhol, Informática, Graduação, Pós… Por exemplo: é comum as empresas exigirem inglês fluente para inúmeras funções. Quando vamos analisar mais a fundo, notamos que o único contato com a língua inglesa que o profissional poderá vir a ter será com o manual do fax importado. Novamente o prejuízo é para ambos: a empresa que pagará mais caro por uma habilidade desnecessária e, do lado do profissional, pelo descontentamento de estar sendo mal aproveitado. A sugestão que costumo dar aos nossos clientes é simples: contrate um profissional sem o inglês, uma vez que este por enquanto é desnecessário, por um custo menor para a empresa, e proporcione como benefício o estudo do idioma. Assim, ambos se beneficiarão e seus resultados com toda a certeza serão melhores. 

Outro fato é a confusão que estão fazendo entre as ferramentas de recrutamento e a seleção propriamente dita. Os bancos de currículos para consultas, tanto nas empresas de Outplacement como nos Sites da internet, são excelentes ferramentas de recrutamento e ainda são incapazes de substituir os selecionadores. A Seleção ainda exige um profissional de RH qualificado, que entende a empresa e suas características e sabe identificar talentos para trazer resultados e valores para a organização. O Selecionador é o responsável por traduzir as informações contidas nestas ferramentas para atender as suas necessidades internas, a contratação. Este Facilitador, que é visto como um centro de custo, na verdade é o responsável direto pelos lucros. Afinal, é o seu trabalho que identifica o tipo de sangue que corre nas veias da organização. 

Que estamos vivendo um tempo de incertezas nós já sabemos. O importante é saber trabalhar com as certezas que já temos. Uma delas é que não estamos nos comunicando corretamente. A linguagem do currículo não responde às perguntas das empresas. Esta verdade causa prejuízos para a sociedade como um todo. É preciso promover um debate entre os dois lados desta moeda e definir os caminhos futuros. 

Artigo escrito pelo parceiro da Curriex, Head-Hunter há 10 anos e Consultor de Carreira, Marcos Possari.

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