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Saber Aprender

SABER APRENDER

Uma visão panorâmica

Sinopse

Algumas reflexões sobre as necessidades de um
modelo educacional mais adequado à velocidade de transformações do mundo
atual, no qual o que aprendemos hoje provavelmente será descartado amanhã.
Esse desprendimento para com o conhecimento nos deixará muito mais livres para
aprendermos e desaprendermos o que é significativo.

Contexto

Se aquilo que somos não é necessariamente
aquilo que aprendemos, então essa instabilidade do conhecimento será muito
proveitosa para que o ser humano possa encontrar a si mesmo. Tal experiência
pode ser bastante evidente quando viajamos a outros países ou moramos no
exterior; observamos que várias formas de ser não são inerentes ao ser
humano, mas sim à sua cultura. Cada uma dessas diferenças nos aponta para
condicionamentos aos quais estamos sujeitos e que, muitas vezes, nos ofuscam a
percepção de quem somos.

Artigo

Saber aprender parece ser uma das mais
interessantes habilidades que alguns jovens de hoje possuem. Conseguem
distinguir informações importantes e significativas daquelas que são mero ruído.
De um modo geral, prestam atenção, apreendem e finalmente entendem nossa
realidade com muito menos esforço e bastante mais comodidade.

Para aqueles que ainda se desesperam com a
quantidade de conhecimento que se multiplica dia a dia, e tentam acumular
conhecimento como recurso para enfrentar as novas cabeças, resta decodificar a
estrutura deste novo paradigma do conhecimento, ou seja, aprender a aprender. Além
disso, existe uma crença popular de que os seres humanos perdem capacidade de
aprendizado com o passar dos anos.

"Os seres humanos aprendem cada vez mais fácil
e rápido, exceto quando, com a mesma facilidade, aprenderam demasiados limites
e barreiras!".

Em nosso mundo, a quantidade de informações
disponível e oferecida aos nossos sentidos diariamente torna-se, em muitas
ocasiões, intoxicante e, até, limitante.

As habilidades de fazerem-se distinções, de
escolher e de decidir o que pode ser útil em cada situação – "separar
o joio do trigo" – talvez venham a ser das mais significativas neste século.

Aprender a aprender, portanto, diz respeito a
cada um de nós sermos capazes de identificar de que forma funcionamos melhor.
Também diz respeito a desenvolvermos o potencial disponível ao lado de nossa
mente consciente como um processo de integração e ativação de percepções e
sensibilidades superiores que possam contribuir nesse processo de escolha e
discernimento.

Expressar e manifestar mais integralmente o
poder criativo que reside em nosso interior faz parte, provavelmente, dos
anseios mais profundos da essência de cada um. Perceba, um ser humano com boa
saúde não dorme indefinidamente. Mais cedo ou mais tarde, abre os olhos e toma
uma nova e mais intensa respiração, como se isso transcendesse sua própria
vontade.

Essas proposições relacionam-se com a atitude
de responsabilizar-se pela escolha do melhor destino, trilhar os melhores
caminhos e apreender de maneira mais profunda as experiências da vida. Mesmo
que de forma não consciente, isto é, em última instância, como cada um de nós
escolhe o que perceber ou prestar atenção? Afinal de contas, quer nosso coração
escolha ou não as experiências a serem vividas (dizem que 99% da existência
humana não é consciente), o próprio mundo se encarrega de nos indicar a
realidade, como se fosse um oráculo.

Aprender a aprender também inclui a abertura
de janelas de percepção para outras dimensões da existência; seja
desenvolvendo apenas a acuidade sensorial, a sensibilidade e a percepção, ou
mesmo ativando a curiosidade, a excitação e a motivação para abordar as
velhas experiências de uma forma inteiramente nova e surpreendente. Até o
ponto de descobrir-se o inusitado, mesmo num universo que acreditamos conhecido.
Desses pontos partiam as propostas de revoluções científicas. Já parou para
pensar como sua respiração acontece espontânea e naturalmente? Fantástico, não?

De um modo geral, a habilidade de gerar
aprendizagens eficazes de outras pessoas ("ensinar") também depende
do hábito de aprender de uma forma organizada. Pensemos um pouco como nós
mesmos aprendemos. Geralmente, ao entrarmos em contato com algo novo, utilizamos
duas estratégias básicas: comparamos com aquilo que já conhecemos (abordagem
estrutural) e encaixamos o conteúdo em algum arquivo (entenda-se memória)
correspondente, e/ou tentamos simplificar o novo conteúdo (abordagem redutora)
até que ele caiba em alguma comparação ou arquivo. Esses processos referem-se
à captura conceitual de algum conhecimento do mundo externo real. Esse método
também possui uma contradição intrínseca: se a novidade não corresponder a
nenhum padrão conhecido após a manipulação estruturalista e reducionista,
geralmente será desprezada ou distorcida.

Assim, do ponto de vista do educador, esse
aprendizado mais cognitivo poderá ser gerado deliberadamente com mais
facilidade se resgatarmos no aprendiz suas referências e conhecimentos
anteriores, para que possamos apresentar-lhe o novo de maneira que se adapte
naturalmente a seu modelo ou concepção do mundo (realidade). Essa talvez seja
uma das mais importantes habilidades do professor (isso também se relaciona com
a metodologia chamada Construtivismo).

Não obstante, o processo comparativo ou mesmo
as distorções são muito úteis na geração de idéias novas (Pensamento
Lateral). A tradução de uma experiência em representações isomórficas (metáforas),
de outra realidade (cenário), permite que identifiquemos detalhes de um
universo que, muitas vezes, se repetem no ambiente inicial, porém, até então
não percebidos ou identificados. Esse é um dos princípios das moralidades
contidas nos contos e nas histórias infantis. Esse também é o princípio que
dá vida aos modelos científicos: todas aquelas representações matemáticas
dos cientistas nada mais são do que metáforas da realidade, e não a realidade
em si.

Há ainda um outro tipo de aprendizagem, mais
natural, primitivo e essencial. Antes de identificar os nomes, qualquer criança
pequena apreende o mundo ao seu redor e intervém nele de uma forma
aparentemente caótica. Não obstante, extremamente ordenada! Esse tipo de
aprendizado, baseado especialmente na percepção, parece muito mais profundo,
talvez até já codificado em seus genes. O indivíduo passa, depois,
aproximadamente vinte anos sendo "educado" para tentar explicar
cognitivamente aquilo que já sabe ou aprendeu da experimentação logo nos
primeiros anos de vida ou mesmo nas primeiras eras de vida da espécie humana
(infelizmente, nessa "educação", na maioria das vezes ele deixa de
utilizar a sua intuição, percepção e capacidade de experimentar, tentar e
testar para habitar uma dimensão essencialmente cultural e social daquilo que
é aceito). "A Ontogenia segue a

Filogenia": o caminho de desenvolvimento
psicológico do indivíduo repete, numa escala de tempo compatível, o caminho
da evolução trilhado pela espécie humana (assim como o desenvolvimento fetal
humano reproduz uma parte do processo da evolução biológica da espécie, também
em escala de tempo compatível; existem etapas nas quais o feto humano pouco se
diferencia, em sua forma aparente, de fetos de outras espécies de animais).

Usando-se alguns dados de pesquisas sobre como
involui a criatividade nas pessoas (dos três ou quatro anos até os vinte e
cinco anos, a habilidade criativa decresce do grau de genialidade para o padrão
mediano cultural), também convivemos com outras forças, tais como a "inércia
social". Esse é um fenômeno de grupo que tenta brecar ou desacelerar
qualquer inovação ou mudança repentina de valores, crenças ou comportamentos
estabelecidos (note que essa metáfora provém do campo da Física Clássica e
diz respeito à tendência dos corpos físicos resistirem a mudanças nos seus
estados de movimento).

De acordo com algumas idéias correntes, que
dizem provir do modelo de C. G. Jung (digo isso por ainda não ter estudado
pessoalmente o trabalho desse grande cientista), o ser humano possui uma
estrutura estratificada que, simplificadamente, poderia ser apresentada como
mente consciente, mente inconsciente individual e mente inconsciente coletiva.
Pergunto-me quão inconscientes são essas mentes. Qualquer pessoa que tenha a
oportunidade de viajar a países de culturas diferentes pode perceber a diferença
na "atmosfera" cultural de comportamento e valores mesmo sem pensar ou
realizar uma análise: basta sentir ou entrar em contato com suas percepções
subjetivas nesse local. Mesmo não prestando atenção, também experimentará
novos e diferentes pensamentos e sentimentos assaltando sua consciência.

Essas e outras percepções fazem parte de
diferentes dimensões da aprendizagem, que incluem impressões subjetivas, intuições,
idéias que invadem nossa consciência sem que nunca tenham sido elaboradas
através do pensamento, ou mesmo respostas que oferecemos aos outros e nos
surpreendemos: como sabíamos disso?

Curiosamente, como nossa cultura racionalista
renegou essas dimensões do conhecimento e janelas de percepção por muito
tempo, fomos ensinados a ignorá-las, ao longo de nosso processo
"educativo". Não obstante, elas podem ser ativadas através de um
processo que aqui chamamos de re-aprender a aprender. Repito: ativar e
reaprender, pois fazem parte de nosso instrumental, assim como braços, pernas,
olhos etc.

As identidades de muitos de nós foram construídas
e constituídas por critérios, crenças e valores pertencentes a modelos de
vida e comportamento próprios de uma fase do desenvolvimento humano, tanto
quanto o barbarismo, a civilização agrícola, a civilização industrial etc.
Assim como nosso momento social evolutivo já transcendeu essas etapas, cada um
de nós pode reformar e acrescentar novos parâmetros e percepções à sua própria
identidade. Por que sermos como nós mesmos se podemos ser melhores?
Argumentaria Richard Bandler.

Tenho como cliente um empresário do ramo de
educação que dirige uma escola. Essa instituição atende um público
pertencente a um nível sócio-econômico padrão A e B. Ele compartilhou comigo
a preocupação de que os professores dessa sua escola estariam cada vez mais
inseguros: cada aluno assiste à televisão, está conectado à Internet e
brinca em seu computador multimídia em casa. Viaja regularmente e participa de
algumas discussões e decisões em seus lares.

Cada vez mais, esses professores convivem com o
fantasma do não saber. Cada um desses alunos pode levantar a mão em aula e
desmentir o conteúdo de seus ensinamentos como sendo desatualizados! Nós
escutamos muitas "histórias da carochinha" em nossa educação e,
muitas vezes, não tínhamos habilidade de argumentar e questionar. Essas novas
gerações não aceitam tais fantasias. Suas percepções e seu acesso às
informações disponíveis no ambiente são suas referências. Usam os mesmos
instrumentos para colocar o sistema em contradição.

Entretanto, o papel do educador não está
condenado à morte, e sim a ocupar uma posição muito mais nobre: ensinar a
escolher, perceber e sentir; ensinar discernimento, ética e sensibilidade, de
modo que as novas gerações possam lidar com a poluição de informações e
com conhecimentos inconsistentes. Mas como fazer isso se não aprendemos assim?
Aprendendo a aprender.

Conclusão

Nunca a capacidade de aprender e a
flexibilidade de se adaptar às mudanças foram tão requisitadas como competências
individuais. Em um nível mais complexo, isso também se tornou necessário para
organizações e empresas, pois suas sobrevivências hoje dependem da velocidade
com que se transformam. Não sabemos ainda, muito bem, no que devemos nos
transformar, pois a conjuntura mundial ainda não está estável o suficiente
para avaliarmos quais foram os procedimentos de sucesso, mas certamente quem não
se transformar não sobrevive. Por isso é tão vital essas reflexões que dão
prioridade aos métodos de aprendizagem seja no âmbito individual ou coletivo.

Autor: Walther Hermann / Instituto de Desenvolvimento do Potencial Humano

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