Saúde mental das mulheres: quando nasce uma mulher, nasce também um sentimento de culpa

A saúde mental das mulheres é um tema complexo, mas precisa ser desmistificado, pois diversos fatores influenciam seus comportamentos e sentimentos.
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saúde mental da mulher

A saúde mental das mulheres é um tema essencial, especialmente no Dia Internacional da Mulher.

Desde cedo, somos ensinadas a correr atrás de algo: ser melhores mulheres, esposas, mães, filhas, profissionais. 

A sensação de nunca ser suficiente nos acompanha, impondo uma busca constante por uma perfeição inalcançável.

Falar sobre saúde mental é abordar seus impactos tanto no indivíduo quanto na sociedade, considerando os diferentes recortes que atravessam cada grupo. 

Isso porque a saúde mental não existe de forma isolada — ela é influenciada por determinantes sociais, como acesso à educação, moradia, alimentação, trabalho, transporte e cultura.

Diante disso, é essencial um olhar segmentado, que reconheça a necessidade de atenção e cuidado redobrados para determinados grupos. 

Não podemos propor soluções únicas para sofrimentos que têm origens e contextos tão distintos.

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Qual o panorama da saúde mental das mulheres?

Quando falamos da saúde mental das mulheres, algumas questões estruturais precisam ser priorizadas. Os dados evidenciam essa realidade:

  • 7 em cada 10 pessoas diagnosticadas com depressão ou ansiedade no Brasil são mulheres, segundo o relatório Esgotadas, da consultoria em equidade de gênero Think Olga. Os sintomas mais relatados incluem estresse, irritabilidade, baixa autoestima, fadiga, sonolência, insônia e tristeza.
  • Em 2019, cerca de 49 milhões de brasileiros viviam com algum transtorno mental ou relacionado ao abuso de substâncias, sendo 53% desse total mulheres, de acordo com o Institute for Health Metrics and Evaluation (IHME).
  • Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), as mulheres têm um risco maior de desenvolver transtornos mentais, como ansiedade e depressão, em comparação aos homens. Elas também são mais suscetíveis a transtornos de estresse, incluindo a síndrome do pânico.
  • Um estudo do Instituto de Psiquiatria da USP aponta que 40,5% das mulheres desenvolvem depressão, 34,9% sofrem de ansiedade e 37,3% apresentam sintomas de estresse.

É essencial tratar a saúde mental feminina com seriedade, reconhecendo desigualdades e buscando soluções para os desafios diários das mulheres.

O que é carga mental feminina?

A carga mental feminina refere-se ao conjunto de tarefas domésticas e responsabilidades familiares que recaem desproporcionalmente sobre as mulheres — de forma não reconhecida e não remunerada.

Esse trabalho invisível e pouco valorizado mantém a mente das mulheres em constante atividade. 

Trata-se do esforço não físico, mas contínuo, necessário para planejar, organizar e garantir que todas as demandas do lar e da família sejam atendidas. 

Na maioria dos casos, essa responsabilidade recai exclusivamente sobre elas. A desigualdade na divisão do trabalho não remunerado evidencia essa sobrecarga. 

Enquanto os homens dedicam, em média, 11 horas semanais ao cuidado de terceiros, as mulheres dedicam 21,4 horas — quase o dobro. 

São elas que cozinham, limpam, fazem compras, educam os filhos e assumem o papel de cuidadoras quando alguém adoece. 

Esse fardo, perpetuado por gerações, tem impacto direto na saúde mental das mulheres.

Mas, diante de tantas pressões, quem cuida das mulheres?

A boa notícia é que muitas mulheres estão cada vez mais atentas à sua saúde emocional e mental. 

Algumas buscam apoio na psicoterapia (22%), enquanto outras não sentem necessidade ou enfrentam dificuldades de acesso, seja pelo custo (49%) ou pela falta de recursos acessíveis (29%).

Diante desse cenário, muitas encontram outras formas de inserir prazer e bem-estar em suas rotinas. 

Atividades físicas, práticas religiosas ou espirituais e o contato com a natureza são algumas das estratégias que ajudam a aliviar a carga e preservar a saúde emocional.

Por isso, é essencial entender como fortalecer o bem-estar emocional e reduzir os impactos da carga mental feminina. 

Com conhecimento, é possível prevenir, identificar mudanças na saúde mental e, em muitos casos, buscar o tratamento adequado.

Um olhar para os pilares da saúde mental

Podemos pensar a saúde mental a partir de três pilares fundamentais: prevenção, percepção e tratamento. 

Esses pilares ajudam a compreender a importância do cuidado contínuo, desde a identificação precoce dos sinais de sofrimento até a busca por suporte adequado. 

Ao trazer essa perspectiva, ampliamos nosso olhar para além das dificuldades e passamos a enxergar caminhos reais para o bem-estar emocional e a qualidade de vida.

Pilar 1 – Prevenção

A prevenção não se resume apenas a hábitos saudáveis, mas também à atenção aos sinais do corpo e da mente.

  • Alimente-se bem: Uma alimentação equilibrada tem um impacto direto na saúde mental.
  • Cuide do seu sono: Uma boa noite de sono é essencial para a saúde mental, pois permite que o cérebro descanse, processe emoções e recupere o equilíbrio para enfrentar o dia com mais clareza e bem-estar.
  • Cuide da sua rotina: Crie uma rotina que inclua momentos de autocuidado, tempo para relaxar e atividades de lazer.
  • Autopercepção: Cansaço frequente, irritação e dificuldade para dormir podem ser sinais de alerta. Ao percebê-los, pare, respire e reflita sobre o que pode estar causando esse mal-estar.
  • Cultive relacionamentos: Cerque-se de pessoas que trazem energia positiva para sua vida.
  • Estimule sua criatividade: Encontre um hobby que te faça bem, como pintar, dançar, escrever ou qualquer atividade que desperte sua imaginação e traga leveza para sua rotina.
  • Seja sua melhor amiga: O dia a dia já traz desafios o suficiente, então não se cobre tanto. Pratique a autocompaixão e pegue leve consigo mesma nas críticas e cobranças.

Pilar 2 – Percepção

O segundo pilar da saúde mental é a percepção. No entanto, na correria do dia a dia e no modo automático, muitas vezes deixamos essa percepção de lado. É fácil não notar quando algo não vai bem. Por isso, é fundamental observar nossos sentimentos e emoções com mais atenção.

Como sempre digo, todos os sentimentos merecem ser reconhecidos, mas é importante ficar alerta quando estão em excesso. 

Muita tristeza, raiva intensa ou cansaço extremo podem ser sinais de que algo precisa de atenção.

  • Auto-observação: Reserve um momento para parar e refletir sobre quais sentimentos estão mais difíceis de processar. Reconhecer essas emoções é o primeiro passo para entender o que está acontecendo dentro de você.
  • Questione-se sempre: Pergunte-se: “Como estou me sentindo em relação a essa situação, esse problema ou esse desafio?” “O que está me preocupando?” Essas perguntas simples ajudam a identificar o que está em jogo e a reconhecer as áreas que você pode controlar ou modificar.

A percepção é essencial para reconhecer quando precisamos ajustar o rumo e cuidar da nossa saúde mental de forma mais assertiva. 

Pilar 3 – Tratamento

E, caso perceba que está perdendo qualidade de vida, é hora de avançar para o terceiro pilar da saúde mental: o tratamento.

Buscar ajuda não é sinal de fraqueza. Na verdade, é um ato de coragem e autocuidado. Como mulheres, ainda carregamos a crença de que precisamos dar conta de tudo e manter todos os “pratinhos no ar” ao mesmo tempo. 

Muitas vezes, vemos mulheres com medo de pedir ajuda, temendo que isso demonstre fraqueza, inabilidade ou até que sejam vistas como “histéricas”. 

No entanto, cuidar da saúde mental é tão essencial quanto cuidar da saúde física, e não devemos negligenciar nenhum desses aspectos.

Esse pilar de cuidado exige que busquemos profissionais qualificados para nos ajudar a enfrentar nossos desafios emocionais.

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Como identificar que preciso de ajuda?

Os sinais podem ser emocionais, comportamentais ou físicos, tais como:

  • Mudanças constantes de humor;
  • Isolamento social;
  • Alterações no sono ou no apetite;
  • Fadiga e baixa energia;
  • Dificuldade de concentração;
  • Pensamentos negativos frequentes.

Se perceber esses sinais interferindo na sua qualidade de vida, não hesite em procurar apoio profissional. Afinal, cuidar da sua saúde mental é um passo essencial para o bem-estar e a qualidade de vida.

Veja 4 opções de tratamento

  1. Terapia: Consultar um psicólogo pode ser um passo essencial para compreender e lidar com seus sentimentos.
  2. Psiquiatria: Em alguns casos, o acompanhamento de um psiquiatra é fundamental. O uso de medicamentos pode ser necessário para trazer mais equilíbrio e qualidade de vida, sempre com a orientação de um profissional. Evite a automedicação.
  3. Atividades relaxantes: Meditação, exercícios físicos e hobbies são formas eficazes de reduzir o estresse e promover o bem-estar emocional.
  4. Alimentação: Uma alimentação balanceada pode e deve fazer parte do tratamento, pois diversos alimentos contribuem diretamente para a saúde mental.

Lembre-se: Buscar ajuda é um ato de coragem, um passo essencial para cuidar de si mesma e manter o equilíbrio mental e emocional.

Cuidar da saúde mental é um ato de amor-próprio e coragem. Assim como o corpo, a mente também merece atenção, respeito e cuidado diário. 

Não há força maior do que reconhecer que precisamos de ajuda e agir para viver de forma equilibrada e plena.

Para finalizar, trago um trecho do livro Mulheres que correm com os lobos, de Clarissa Pinkola Estés:

“A mulher que sabe quem é e se honra é como a loba. Ela conhece seu lugar no mundo e não se sente perdida. Ela ouve os gritos das sombras, a voz da intuição e a batida do seu próprio coração, sem se deixar levar pelas expectativas do mundo. Quando uma mulher se reconecta com sua essência selvagem, ela encontra a força para cuidar de si mesma e de sua saúde mental.”

Head de Pessoas e Cultura da CBYK Consultoria e Seastorm Ventures, com certificação Internacional em Psicologia Positiva pelo WholeBeing Institute, Chief Hapiness Officer (CHO) pelo Instituto Feliciência, Colunista no RH Portal, com MBA em Marketing pela Fundação Getúlio Vargas, e graduação em Comunicação Social pela Universidade Metodista. Profissional voltada a Cultura Organizacional, Bem-estar e Comunicação Corporativa, com mais de 15 anos de experiência atuando em empresas de grande porte e multinacionais, na área de engajamento e clima organizacional, branding, jornada de cliente, comunicação corporativa e marketing de produtos.

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