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Saúde mental nas empresas: desafios e oportunidades atuais

saúde mental

Nunca se falou tanto sobre saúde mental no Brasil como agora. Antes, se tratava de um tema tabu, algo a ser conversado apenas de maneira privada. Hoje falar sobre o assunto ainda é uma tarefa complexa, mas cada vez mais comentada, como o caso da Simone Biles nas Olimpíadas, como no aumento da procura por benefícios corporativos de bem-estar e de saúde mental.

Pensando no Brasil, o cenário da pandemia é especialmente mais desafiador na questão da saúde mental. Temos o quinto maior índice mundial de depressão: 5,8%. Entre 2003 e 2019, houve um aumento de 34,2% no número de casos. A pandemia deve fazer esse índice crescer ainda mais. Uma pesquisa da Universidade Federal do Rio de Janeiro identificou um aumento de 80% nos casos de estresse e ansiedade desde que a covid-19 se espalhou pelo Brasil e pelo mundo

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Vale dizer que, como se já não fosse pouco o efeito devastador que a depressão tem na vida de uma pessoa, ela também causa impactos negativos em sua saúde. Quem tem depressão resistente ao tratamento está duas vezes mais propenso a ter obesidade, dores nas costas e distúrbios do sono. Além disso, têm 52% mais chances de desenvolver hipertensão. 

Toda a sociedade sente os impactos da deterioração da saúde mental. Pessoas diagnosticadas com depressão gastam de duas a quatro vezes mais com exames laboratoriais e internações. Em média, uma pessoa com depressão perde 36 dias de trabalho ao ano por conta da doença. Estima-se que o Brasil perca anualmente US$ 63,3 bilhões por conta da depressão, o segundo maior valor do mundo. O transtorno é, atualmente, a terceira maior causa de afastamentos do trabalho. 

Apesar dos números não serem muito positivos, há sim como mudar a realidade através da prevenção. Dados mostram que em 96,8% dos casos de suicidio deve-se a um transtorno psiquiátrico que não foi diagnosticado ou tratado da maneira correta. Ou seja, é possível acolher, orientar e oferecer um tratamento psicológico adequado para a pessoa que está sofrendo.

Leia mais sobre prevenção do suicídio e o Setembro Amarelo nas organizações produzido pela Vitalk em parceria com a Sólides.

Desafio da inclusão e diversidade nas organizações

Vale também dizer que, ainda, há o desafio da inclusão e diversidade nas organizações, em todos os seus sentidos. Sabemos que um ambiente de trabalho acolhedor e inclusivo traz enormes benefícios para empresas e colaboradores. Acolher diversas perspectivas enriquece a experiência em todos os níveis e é capaz de gerar importantes resultados. Por isso, falar de temáticas LBTQIA+ nesse contexto é tão importante. Trata-se de uma das populações mais discriminadas no Brasil. 

Dados mostram que a cada 20 horas uma pessoa morre por ser LGBTQIA+ no país. Levantamentos revelam que jovens rejeitados pela família por sua orientação sexual têm 8,4 vezes mais chances de morrerem por suicídio. Quando consideramos apenas pessoas gays, lésbicas e bissexuais, as chances desse tipo de morte são cinco vezes maiores do que em pessoas heterossexuais. Esse padrão de discriminação se repete no ambiente de trabalho. Para sobreviver, 90% das pessoas trans precisam recorrer à prostituição, já que faltam empregos para essa população. 

Uma vez dentro das empresas, a população LGBTQIA+ não tem acesso a cargos de liderança. Parcela pequena (13%) ocupa cargo de diretoria ou C-level. A maioria (54%) está em posições de entrada, como assistente ou estagiário(a). Na visão de   de pessoas que se identificam como parte da comunidade LGBTQIA+, as empresas ainda têm muito a fazer para acolhê-las. Uma parcela significativa (82%) tem essa opinião, enquanto pouco mais de um terço (32%) afirmou se sentir acolhida em seu local de trabalho. 

Ser um ambiente acolhedor pode fazer a diferença para que esses profissionais se sintam mais à vontade, já que 66% acredita que revelar sua identidade pode ser prejudicial à carreira. Além disso, empresas que não apoiam causas da  população LGBTQIA+ são deixadas de lado quando esse público procura vagas. A maioria (62%) afirma que nem tentaria uma vaga em locais sem esse tipo de preocupação. 

O que fazer, então? Como lidar com a depressão, outros transtornos mentais e conseguir acolher e incluir todos os diferentes perfis da sua empresa? 

Empresas de diversas áreas têm discutido essa questão abertamente com seus colaboradores e com a sociedade. Embora não haja um livro de receitas que permita lidar com todas as particularidades dos indivíduos e dos contextos, uma coisa é certa: achar o equilíbrio entre acolher quem sofre com transtornos de saúde mental e prevenir quem pode vir a sofrer, é o essencial. 

É preciso também desmistificar o tabu em torno do tempo e mostrar-lhe que sofrer com depressão, ansiedade generalizada ou outros transtornos é algo aceitável, que faz parte da vida de muitas pessoas.

Exemplos como o da atleta Simone Biles, da equipe olímpica de ginástica artística dos Estados Unidos, mostram que essa discussão não só é possível, como necessária. Até onde deve ir a demanda por desempenho? Qual é o preço aceitável a se pagar pelo sucesso? E as lideranças podem ter um papel fundamental para começar a conversa sobre o tema através da suas próprias experiências e vulnerabilidades.

A Ambev, por exemplo, grande empresa brasileira do ramo de bebidas, criou recentemente uma diretoria que se dedica a cuidar do bem estar mental dos funcionários, criando ações, diretrizes e programas. Isso mostra que em diversos setores da sociedade e da economia existe preocupação com a saúde mental.

Pesquisadores como Amy Edmonton mostraram a importância de existir um ambiente de trabalho seguro psicologicamente. Poder falar aberta e livremente sem medo de punição ou de ser ridicularizado cria tomadas de decisão melhores e propicia boas relações interpessoais e dentro de grupos. Edmonton nos avisa, no entanto, que criar essa segurança não é fácil, e as lideranças precisam ser parte ativa da mudança da maneira de pensar. 

No começo de 2021, mais de mil pessoas participaram de uma premiação onde 19 empresas apoiaram, como Johnson & Johnson e Stefanini, para premiar lideranças acolhedoras e humanas nas empresas. A premiação mostrou que há lideranças de diversas empresas brasileiras que se destacam pela sua inteligência emocional, além de aspectos como comunicação, autonomia e segurança psicológica nas suas histórias de liderança e gestão. 

Tanto o tema saúde mental, como o papel mais estratégico do RH nas empresas, ganharam visibilidade na pandemia. Por isso, ser um(uma) gestora de RH, e ter o papel de cuidar do bem-estar emocional das pessoas colaboradoras é duplamente mais desafiador, e o primeiro passo de todos pode ser cuidar do seu próprio bem-estar e buscar uma rotina saudável e de pequenos auto cuidados diários.

É preciso saber lidar com suas próprias emoções para assim conseguir lidar e liderar as emoções das pessoas ao seu redor. De acordo com filósofo Rumi, “ontem eu era inteligente, então eu queria mudar o mundo. Hoje eu sou sábio, então eu estou mudando a mim mesmo.”

Artigo produzido pela Vitalk.

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