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Setembro Amarelo: o suicídio na perspectiva do trabalho

1Profa Denise Rossi 

O suicídio é um tema que, apesar de ser amplamente discutido no mundo, ainda é socialmente tratado como tabu, principalmente em função da atribuição de nexos causais, tais como problemas da esfera privada do sujeito e transtornos mentais. Estas concepções também são replicadas quando o suicídio ocorre no âmbito do trabalho, apesar do reconhecimento da influência que as relações sociais e o trabalho exercem sobre a subjetividade de cada um. 

No ambiente de trabalho, temas polêmicos ou que requeiram algum tipo de posicionamento das pessoas frente a esses assuntos não são discutidos. No geral, temas ligados a saúde mental são tabus dentro das organizações de trabalho. Até mesmo em eventos ligados a saúde e bem estar dos colaboradores, como por exemplo a SIPAT (Semana de Prevenção a Acidentes no Trabalho), raramente trata-se de assuntos referente a depressão, transtornos de ansiedade ou de pânico. Os funcionários tendem a esconder tais transtornos por medo de serem julgados pelos colegas e chefias, e serem afastados ou demitidos de seus cargos. Muitas vezes preferem afirmar que estão com problemas de saúde física, como se fosse possível negar as correlações com os transtornos mentais e/ou estresse. 

Nova call to action

O trabalho é considerado a atividade humana que mais está presente durante o percurso da vida das pessoas e, portanto, desempenha um papel essencial em sua humanização e construção de sua subjetividade. Apesar disto, o trabalhador se depara com questões que estão na contramão desses aspectos, tais como a constante precarização das condições de trabalho e novas formas de gestão e de pressão. As novas facetas do trabalho tornam indispensável a necessidade de realizar estudos sobre as consequências que trouxeram para a saúde psíquica do trabalhador, dentre as quais inclui-se o ato extremo do suicídio no trabalho. O suicídio é um fenômeno social complexo, visto que, possui características epidemiológicas diferentes entre populações de regiões distintas, abrange diversos aspectos da vida da pessoa e tem íntima relação com questões sociais e culturais. 

Algumas obras podem nos ajudar a compreender o fenômeno do suicídio ultrapassando as perspectivas psicopatológicas e estudá-lo como um problema também existente no âmbito do trabalho. A teoria Psicodinâmica do autor francês Christophe Dejours é bem elucidativa e questionadora sobre o tema: “A loucura do trabalho” (2015), “Psicodinâmica do Trabalho: Casos Clínicos” (2017) e “Suicídio e trabalho: o que fazer”. Também a obra do brasileiro Ricardo Antunes “O privilégio da servidão: o novo proletariado de serviços na era digital” (2018), nos dá um contexto interessante sobre a realidade brasileira. 

Ainda há muito o que estudar e discutir sobre o suicídio e no que se refere ao nexo do trabalho ligado ao ato. A maioria dos estudos publicados por órgãos oficiais é razoavelmente recente, sendo o primeiro relatório da OMS (Organização Mundial da Saúde) sobre o suicídio publicado em 2014, além do primeiro estudo oficial do Ministério da Saúde com dados sobre o suicídio no Brasil publicado no ano de 2017.Este estudo foi intitulado “Boletim Epidemiológico de Tentativas e Óbitos por Suicídio no Brasil”, e traz alertas sobre a alta taxa de suicídio entre idosos com mais de 70 anos e entre jovens de 15 a 29 anos. O diagnóstico registrou entre 2011 e 2016, 62.804 mortes por suicídio, a maioria (62%) por enforcamento, sendo que, os homens concretizaram o ato mais do que as mulheres, correspondendo a 79% do total de óbitos registrados. Entre os jovens de 15 a 29 anos, o suicídio também é maior entre os homens, cuja taxa é de 9 mortes por 100 mil habitantes. Entre as mulheres, o índice é quase quatro vezes menor (2,4 por 100 mil). 

Apesar do conhecimento do aumento expressivo de casos de suicídio no Brasil nos últimos anos, o tema só passou a ser pauta de maiores discussões a partir de 2015, ano em que a campanha do “Setembro Amarelo” foi criada em conjunto pelo Centro de Valorização da Vida (CVV), pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) e pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). A campanha Setembro Amarelo surgiu com o intuito de informar às pessoas, promover ações de prevenção e desconstruir preconceitos a partir de discussões públicas sobre o tema do suicídio. Apesar da crescente adesão social a causa, o suicídio ainda é considerado um assunto obscuro em função de seu difícil diagnóstico, fato que ocorre não apenas pela pluralidade de variáveis envolvidas, mas principalmente por estar associado ao sofrimento psíquico. 

Para o Ministério da Saúde (2017), entre os fatores de risco para o suicídio estão transtornos mentais, como depressão, alcoolismo, esquizofrenia; questões sociodemográficas, como isolamento social; psicológicos, como perdas recentes; e condições clínicas incapacitantes, como lesões desfigurantes, dor crônica, neoplasias malignas. No entanto, tais aspectos não podem ser considerados de forma isolada e cada caso deve ser tratado no Sistema Único de Saúde conforme um projeto terapêutico individual. 

Dados divulgados por pesquisadores independentes, tais como pela plataforma digital 2ComunicaQueMuda (CQM) que pesquisou menções sobre o suicídio nas redes sociais durante 29 dias em Maio/2020, contabilizou mais de 100 mil menções do termo e afins e também afirma que o número de depoimentos e relatos subiu de 6,3% em 2017 para 23% em 2020. Para a CQM, em 2017 a principal conexão com o tema estava ligada ao jogo “Baleia Azul”, em 2018 com a série “13 Reasons Why” e que atualmente, estão ligados ao isolamento social. 

Podemos inferir que a pandemia do Covid 19 e suas consequências podem gerar o aumento da tristeza, do silêncio, do distanciamento, da depressão e até do suicídio, portanto teremos que monitorar os números oficiais (que muitas vezes demoram para serem divulgados) para entender as conexões atuais. Também podemos inferir que o desemprego e a queda na renda familiar podem desencadear atos de tentativas de suicídio, porque muitas vezes as pessoas se desesperam, não veem saídas, não tem apoio e podem tomar decisões precipitadas. Porém, a escassez de estudos científicos sobre o suicídio relacionado com o trabalho e a falta de publicações com dados precisos sobre os casos de suicídio no trabalho e a relação do ato com o trabalho dificultam essas hipóteses. 

Para Dejours (2015) o sofrimento psíquico no trabalho está diretamente relacionado à organização e condições do trabalho, sendo a primeira representada pela “[…] a divisão do trabalho, o conteúdo da tarefa, o sistema hierárquico, as modalidades de comando, as relações de poder e as questões de responsabilidade”. Ou seja, a questão não é que o trabalho adoece as pessoas, e sim a organização mecanicista do trabalho, o ambiente, as relações ou a falta delas, a pressão e, principalmente a falta de laço prazeroso com o trabalho realizado. Mesmo após o reconhecimento de sua existência, o sofrimento no trabalho ainda é de difícil identificação, pois é silencioso e se apresenta de várias formas, dentro e fora do contexto laboral. Fora do local de trabalho, esse sofrimento já dá indícios sob a forma de nervosismo, relacionamento ruim com a família, tensão, preocupação, transtornos do sono, dor crônica de cabeça, sensações desagradáveis no estômago, dentro outras manifestações. 

Pode-se considerar que o suicídio relacionado com o contexto profissional é um tema que afeta muitas pessoas pelo mundo afora, podendo gerar o ato contra a vida no próprio local de trabalho ou fora desse, porém, contextualizado com as pressões laborais já citadas no texto. Apesar do vasto referencial teórico existente sobre o tema em diversas áreas de estudo (sociologia, medicina e psicologia), falar sobre suicídio e trabalho ainda é um tabu, assunto pouco discutido e com poucos dados disponíveis, visto que, as consequências nocivas das transformações que ocorrem no mundo do trabalho e que afetam os modelos de gestão e a cultura das organizações, levam tempo e vidas até que sejam percebidas. 

1 Denise Leitoguinho Rossi, Psicóloga com ênfase Organizacional e do Trabalho, Mestre em Administração. Professora universitária, Consultora de empresas, Gestão Pessoas/DHO/RH. 

2 https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2020/07/crescem-publicacoes-sobre-suicidio-no-brasil- durante-a-pandemia-veja-como-buscar-ajuda.shtml.

REFERENCIAS 

ANTUNES, Ricardo. O privilégio da servidão: o novo proletariado de serviços na era digital. São Paulo: Boitempo, 2018. 

BRASIL. Ministério da Saúde. PERFIL EPIDEMIOLÓGICO DAS TENTATIVAS E ÓBITOS POR SUICÍDIO NO BRASIL E A REDE DE ATENÇÃO À SAÚDE. Brasil: Ministério da Saúde, v. 48, n. 38, 21 set. 2017. Mensal. Disponível em: http://portalarquivos2.saude.gov.br/images/pdf/2017/setembro/21/2017-025-Perfil- epidemio Acesso em: 10 set. 2020. 

DEJOURS, Christophe. A loucura do trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho. 5. ed. São Paulo: Cortez, 2015. 

DEJOURS, Christophe et al. Psicodinâmica do Trabalho: Casos Clínicos. Porto Alegre: Dublinense, 2017. 1994 p. 

DEJOURS, Christophe; BÈGUE, Florence. Suicídio e trabalho: o que fazer. São Paulo: Paralelo 15, 2010. 128p. 

https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2020/07/crescem-publicacoes-sobre- suicidio-no-brasil-durante-a-pandemia-veja-como-buscar-ajuda.shtml. Acesso em: 10 set. 2020 

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