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Um código de ética para o RH


O tema foi motivado pelos e-mails que recebi em razão do material publicado na coluna, edições de dezembro de 2.001 e fevereiro de 2.002. Além dos e-mails recebidos dos colegas leitores, há muito vinha pensando em disponibilizar o resultado parcial de uma tentativa de compor e divulgar um código de ética em RH.

Há alguns anos, uma entidade que não será aqui nominada por força dos imperativos éticos, convidou-me e a um grupo multidisciplinar de profissionais da gestão de RH, para elaborar o código de ética. Coube-me a tarefa de elaborar um rascunho, para servir de arrancador dos debates. Pesquisei muitos códigos de ética e livros sobre o assunto e fui buscar alguns fundamentos na Filosofia e nas Ciências Políticas. Colhi as sugestões de vários profissionais da área de RH e de colegas nos vários cursos que então ministrava, chegando a um material muito rico que resultou no decálogo que virá adiante nesse artigo.

As discussões do grupo formado em pouco tempo chegaram a impasses complicados. Os seus membros formados e atuantes no contexto da Psicologia Clínica e Organizacional tendiam à construção de um texto muito focado nas questões internas da alma, o que era rebatido pelos membros que tinham uma formação e visões mais focadas no chamado “operacional concreto”. Um dos membros do grupo, advogado trabalhista e um constitucionalista feroz, alinhava argumentos que se contrapunham aos das duas correntes já mencionadas, o que provocava debates acirrados. Para agravar o tempero polêmico do grupo, havia um pequeno subgrupo que defendia uma linha que mais parecia os famosos regulamentos internos das empresas (é proibido isso, aquilo, aquilo outro e que o Criador tenha piedade dos transgressores…).

Nova call to action

Numa das reuniões, a temperatura dos debates chegou ao ponto vulcânico: houve uma troca de “adjetivos” como “alienado”, “quadrado”, “esquizóide”, “demagogo”, “esquerda festiva” e até um explosivo “BURRO!”. E nóis era tudo de RH… imagina si nóis num fosse, né?

Passados alguns meses e muitas reuniões, o assunto “esfriou” e o grupo se auto-dissolveu. O assunto ficou esquecido num disquete e, após o trabalho quase de arqueologia, enfim o texto foi recuperado. Deixei como estava na versão original.

• Não compactuar com nenhum tipo de violação deliberada aos Direitos Humanos, ao Direito e ao Direito do Trabalho;
• Não tornar pública nenhuma informação obtida por via de testes de personalidade e outros meios de acesso à individualidade;
• Jamais aceitar propinas ou assemelhados de fornecedores de serviços, candidatos a emprego ou de quaisquer outras fontes, naturalmente vinculadas ao processo de trabalho na área;
• Guardar absoluta confidencialidade a respeito de manifestações espontâneas da parte daqueles(as) que buscam em RH a orientação para problemas pessoais e profissionais;
• Guardar absoluta confidencialidade a respeito dos planos e decisões da empresa que envolvam as pessoas que nelas trabalham, mesmo que estes venham a significar algum desconforto ou assemelhado, na medida em que houver expressa deliberação das instâncias superiores nesse sentido;
• Administrar a política de remuneração e de benefícios da empresa com base em dados de mercado, reais e comprováveis através de pesquisas técnicas e tratadas conforme os procedimentos estatísticos universalmente praticados;
• Encaminhar, com absoluta isenção, para as instâncias superiores da empresa ou a quem couber, conforme cada caso, as informações obtidas em pesquisas de clima interno, estruturadas, informais ou por outros meios de obtenção;
• Jamais transigir quanto a possíveis práticas de discriminação , de qualquer natureza, assim como em relação às minorias sociais;
• Jamais usar a perícia de formação e/ou exercício profissional para manipular sentimentos, emoções e percepções humanas em causa própria ou de terceiros;
• A empresa que emprega o profissional de RH deve ter seus interesses defendidos em primeiro lugar nos assuntos concernentes à área, observado o disposto no primeiro artigo.

Peço que me permita o caro leitor destacar que não pleiteio a sabedoria para firmar e decidir como definitivo um código de ética e aqui fica a sugestão: que tal partir dele e, enfim, construir um Código de Ética para RH, quem sabe pelo menos um Código de Conduta?

Benedito Milioni,
54 anos, é graduado em Sociologia e Administração de Empresas e, por vocação e escolha, um especialista em educação empresarial. Sua carreira começou em março de 1970, como instrutor substituto de programas de treinamento de pessoal de supervisão industrial.

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